Nesse mundo 

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​É preciso escrever
Antes que as palavras fujam
Ou que nos tirem o direito de palavrear
E só sobrem as notícias ruins
Nas páginas dos jornais
Os comentários odiosos
Nas redes sociais
As mentiras enfeitadas
Na televisão

Esse é o mundo em que vivemos
Esse é o mundo em que queremos
Viver?

É tanta bala encontrada
Tiro certeiro
Em quem não era pra acertar
Tanta pele marcada
Roxa com vergonha de mostrar
Tanto dedo apontado
Defunto comemorado
E pouca gente pra chorar

Esse é o mundo em que vivemos
Esse é o mundo em queremos
Viver?

É o prato vazio na escola
As contas no estrangeiro
É tanta cara de pau
E tão pouco cupinzeiro
É tanta medida torta
Que a justiça escolhe a porta
Pra arrombar e pra pedir licença
E obedece quem não tem dinheiro
Porque já nasceu culpado

Esse é o mundo em que vivemos
Esse é o mundo em que queremos
Viver?

Todo dia, uma multidão
Tantos mortos
A fome que mata
A doença que mata
O fanatismo que mata
Mais que qualquer explosão

Esse é o mundo em que vivemos
Esse é o mundo em que queremos
Viver?

E tem veneno na mesa
E tem veneno na água
Veneno no ar
Que assim aumenta
O lucro da empresa
Que faz o veneno
E o remédio pra tratar

É preciso escrever
Antes que as palavras fujam
Ou nos tirem o direito de palavrear
Porque o fascismo raspou o bigode
E sem disfarce começa a semear
Seus espinhos

É preciso escrever
Enquanto a tocha circula
“Não deixem a chama se apagar”
Dizem os interessados
Enquanto o circo pega fogo

Esse é o mundo em que vivemos
Esse é o mundo em que queremos
Viver?

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Novembro

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Da ganância, a lama
A morte e a tragédia
Do metal, o lucro
O luto da terra

Da ignorância, o terror
A morte e a tragédia
Da fé cega, o sangue
O luto da guerra

Novembro soterrado
Novembro ensanguentado
Novembro
Lembro
E quero que acabe

“Como a mais bela tribo, dos mais belos índios”

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Nesta tribo pós moderna chamada Brasil, nossos caciques de terno e gravata ou tailleur, sem um tiquinho de inocência,  entregam nossas riquezas em troca de pilhas de papel numerado.  Deixam que esburaquem nossa terra, envenenem nossa água e nosso ar, derrubem nossas matas,  matem nossos animais, matem pessoas, cubram tudo com lama da morte morro abaixo, rio abaixo até o mar.
Nos espelhos digitais não vemos o mundo doente. E o pouco do reflexo  que se mostra, muitos fazem questão de ignorar. Não vemos o mundo.  Não vemos a doença.
Será que ao menos tentaremos chorar?
Os índios aprenderam com os erros do passado. Nós não.

*O título é uma citação da música Índios da banda Legião Urbana

Divagações sobre a (não) evolução da humanidade em parágrafo único de ficção científica

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Imagino que, quando os deuses astronautas deixaram o solo deste planeta, há tempos atrás, o fizeram acreditando no dever cumprido. “Demos a nossa contribuição. Agora é a natureza seguir seu caminho que, em alguns séculos, encontraremos uma sociedade evoluída, capaz de compreender e aproveitar o conhecimento que podemos oferecer”. Gerações e gerações de alienígenas mitificados nos observando,  esperando a tal evolução acontecer. Às vezes, ocultos sobre crenças que pudessem ser assimiladas pelos humanos da época ou, às vezes, através de mentes geniais, quando mistérios se descortinavam através da ciência, eles foram tentando dar um empurrãozinho ao que eles, otimistas,  enxergavam como certo ocorrer.  Milênios se passaram,  andamos para frente e para atrás. Mais para atrás do que deveríamos. O planeta rico e exuberante das primeiras visitas está em vias de um colapso. A sociedade, mesmo que coberta de tecnologia, mantém comportamentos destrutivos de uma época em que não havia no bicho quase homem a consciência. E nessa fábula fantástica,  tento imaginar como os deuses astronautas devem estar se sentindo. Quantos estudos e pesquisas eles devem ter feito para descobrir onde falharam em suas previsões? Já não sei se admitiram que estavam errados e colocaram avisos no espaço, ao redor da Terra, informando o perigo de uma população hostil. Quem sabe, eles sejam brasileiros e não desistam nunca e estejam,  ainda,  acreditando em nós. Quem sabe eles estejam elaborando um plano que nos ajude a evitar a nossa própria extinção. Quem sabe? Entretanto, levando-se em consideração que esta é apenas uma hipótese ficcional, é urgente lembrar que já passamos da hora de restaurar o nosso planeta e a resgatar a nossa humanidade. Não vejo naves no horizonte…

Dorme menino

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Que as estrelas iluminam teu céu

Dorme menino
Que uma concha em teu ouvido
Guarda a voz doce da sereia a te ninar

Dorme menino
E sonha
Sonha lindos sonhos num sono sem fim

Dorme menino
Em seu berço de areia
Sua colcha de mar

Dorme menino
Dorme em paz
Que a paz em vigília não veio

Então dorme menino
Dorme
Dorme pra sempre…

Na praia

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Esperanças mar adentro
Esperanças que lado de lá
A vida tenha mais esperança

E o mar engole sua parte
Em sal, suor, lágrimas e sangue
E o mar engole sua parte de sonhos
E a esperança de chegar no lado de lá

E na terra, de um lado
Guerras, violência e fome
Corpos e mais corpos
Dos que não partiram

E na terra, no outro lado
Cercas e muros
Braços cruzados, olhares desconfiados
E frios

Ainda assim, esperança

A esperança dos desesperados
Que se lançam mar adentro

Mas o mar engole sua parte
Em sangue e suor
E muitos corpos chegam à areia
Levados pelas águas
Cada vez mais salgadas
Pelas lágrimas dos que sobreviveram…

E ao chegar ao velho continente,  um sobrevivente se prepara para fazer o caminho da volta. Levará consigo esposa e filhos. Serão sepultados na terra que tiveram que abandonar.

Epidemia

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“Mas o ódio cega e você não precebe
Mas o ódio cega”

Como no livro de Saramago, são cada vez mais os cegos pelo mundo, são cada vez mais os cegos no país. Essa epidemia que se alastra aos berros e que ninguém se dá conta.

O ódio, como bactéria resistente, sobrevive à doses cavalares de conhecimento, tratamentos intensivos de razão, sessões  terapêuticas de compreensão, injeções de tolerância e choques de gentileza e amor.

A humanidade está ficando cega e também surda. Se aproxima do surgimento de uma nova espécie, que pouco vê, pouco escuta e altamente agressiva. Uma espécie que já surgirá fadada à extinção das outras espécies e à extinção de si própria. Uma espécie que se dividirá em sub grupos, idênticos na biologia e em ódio, cuja única diferença estará  apenas nos alvos de sua raiva. Todos cegos e surdos, não perceberão que seus discursos e insultos serão os mesmos, só alterando  o destinatário da violência que professam. Todos cegos e surdos. Entre os poucos que vêem, dois grupos: os que desconsolados tentam recuperar a capacidade de enxergar da humanidade e outro, que se ocupa em envenenar os olhos e ouvidos, que dissemina o ódio, pois do ódio vem seu poder.

São tantos os cegos pelo ódio. E é difícil guiá-los de volta à visão. Eles não ouvem nada além das palavras raivosas que pronunciam e, se os tocamos levemente sinalizando o auxílio, recebemos de volta a agressão gratuita e desmedida.

Quanto amor será preciso? Quanta informação será necessária?

Precisamos vacinar as gerações futuras com educação de qualidade, antes que seja tarde demais.